Vi os olhos da Lilly se arregalarem para alguma coisa que ela viu atrás de mim.
“O que ELE está fazendo aqui?”, ela quis saber. Então, para a pessoa que estava atrás de mim, disse: “Caso você tenha se esquecido, você já se FORMOU, sabia?”
Alguma coisa fez meu coração se apertar com aquelas palavras. Porque eu sabia — simplesmente SABIA — quem era a pessoa com quem ela estava falando.
A ÚLTIMA pessoa que eu queria ver naquele instante.
Ou talvez a pessoa que eu MAIS queria ver naquele instante.
Tudo dependia do que ele tinha a dizer para mim.
Lentamente, eu me virei
E lá estava Michael.
(...)
“A gente precisa conversar”, foi o que o Michael me disse. Não disse 0i. Nem Porque você não me ligou? Nem Por onde você tem andado? E com toda a certeza não me deu nenhum beijo.
Só A gente precisa conversar.
E aquelas quatro palavras foram o bastante para fazer o meu coração parecer tão encolhido e duro quanto o de Santa Amelie.
“Certo”, respondi, apesar de minha boca ter ficado completamente seca.
E quando ele deu meia-volta para sair da escola, eu fui atrás dele, depois de jogar um olhar ameaçador por cima do ombro — para informar ao Lars que era para ficar BEM longe de mim, e para Lilly saber que não haveria comemoração nenhuma.
Pelo menos, não por enquanto.
Lars aceitou com muito profissionalismo, como é típico dele. Mas eu ouvi Lilly gritar: “Beleza! Pode ir com o seu NAMORADO. Veja se nós estamos ligando!”
Mas Lilly não sabia. Lilly não sabia como o meu coração tinha ficado encolhido e pequeno de repente. Lilly não sabia que eu estava achando que a minha vida — minha vida perfeita de princesa — estava prestes a explodir em cinqüenta bilhões de pedaços. Sabe aquele supervulcão embaixo de Yellowstone? É, quando aquele negócio explodir, não vai ser NADA comparado a isso.
Desci a escada da escola atrás do Michael — bem embaixo do olhar vigilante das câmeras de segurança — e para longe da multidão reunida em volta do joe. Fui atrás dele atravessando duas avenidas, sendo que nenhum de nós disse nenhuma palavra. Com toda a certeza, eu é que não ia falar primeiro.
Porque agora tudo estava tão diferente. Se ele quisesse terminar comigo porque eu não ia Fazer Aquilo — bom, não fazia a menor diferença para mim.
Ah, FAZIA diferença sim, é claro. Meu coração JÁ estava se despedaçando, e a única coisa que ele disse foi: “A gente precisa conversar.”
Mas, acorda. Eu sou a princesa da Genovia. Eu sou a presidente recém-eleita do conselho estudantil da AEHS.
E NINGUÉM — nem mesmo Michael — vai me dizer quando eu devo Fazer Aquilo.
Finalmente, chegamos aqui, à pizzaria Ray’s.
(...)
Michael apontou para um reservado e disse: “Quer uma pizza?”
“A gente precisa conversar” e “Quer uma pizza?”
Foi tudo o que ele tinha me dito até então.
Eu respondi: “Quero.” E como minha boca ainda parecia seca como areia, eu acrescentei: “E uma Coca.”
Ele foi até o balcão e fez o pedido. Daí, voltou para o reservado, deslizou para o assento à minha frente, me olhou bem nos olhos, e disse: “Eu vi o debate.”
(...)
Ele apoiou um braço nas costas do assento dele no reservado. “Você é a nova presidente da AEHS.”
Coloquei as mãos com os dedos dobrados para dentro em cima da mesa, na esperança de que ele não notasse o estrago que fiz nas minhas unhas desde a última vez que a gente tinha se encontrado. Estrago que se devia quase que inteiramente às preocupações que eu tive por causa DELE.
“Parece que sim”, respondi.
“Achei que Lilly quisesse ser presidente”, disse Michael. “Não você.”
“Ela quer”, respondi. “Mas agora... bom, eu meio que não quero abandonar o cargo.”
Michael ergueu as sobrancelhas. Daí soltou um assobio baixinho.
“Uau”, disse ele. “Você se importa se eu não estiver por perto quando você explicar isso a ela?”
“Não”, respondi. “Tudo bem.”
Então eu fiquei paralisada. Espera... se ele não queria estar por perto quando eu explicasse para Lilly que eu não tinha intenção de renunciar ao cargo de presidente, isso que dizer que...
Isso TEM de querer dizer que...
De repente, meu pobre coração encolhido pareceu demonstrar alguns sinais de vida.
“A pizza está pronta”, disse o cara atrás do balcão.
Então, Michael se levantou para pegar a pizza e nossos três refrigerantes — ele também pediu um para Lars, que estava sentado em uma mesa do outro lado do restaurante, fingindo estar interessado no episódio de Dr Phil que o cara do balcão estava assistindo na TV pendurada no teto — e levou tudo para a mesa.
(...)
Michael, como era de costume, simplesmente pegou uma fatia — aparentemente, alheio ao fato de que estava pelando—, dobrou no meio e deu uma mordida bem grande.
As mãos dele, enquanto fazia isso, pareciam assustadoramente... grandes. Por que eu nunca tinha reparado nisso antes? Como as mãos do Michael são grandes!
Aí, depois que ele engoliu, disse: “Olha. Eu não quero brigar por causa disso.”
Ergui os olhos para ele meio de repente, porque estava olhando para as mãos dele. Não tinha muita certeza do que ele quis dizer com “isso”. Será que ele estava falando da Lilly e da presidência? Ou será que estava falando...
“Eu só quero saber uma coisa”, prosseguiu ele, com uma voz meio cansada, “a gente vai Fazer Aquilo ALGUM DIA?”
Certo. Não era sobre Lilly e a presidência.
Eu praticamente engasguei com o pedacinho de pizza que tinha mordido, e precisei engolir uns três litros de Coca antes de ser capaz de dizer: “CLARO QUE SIM.”
Mas Michael pareceu desconfiado.
“Antes do final desta década?”
“Com toda a certeza”, disse eu, com mais convicção do que eu de fato sentia. Mas sabe como é. O que mais eu poderia ter dito? Além do mais, o meu rosto estava tão vermelho quanto o molho da pizza. Eu sei porque vi o meu reflexo no porta-guardanapo.
“Quando eu entrei nesta, eu sabia que não ia ser fácil, Mia”, disse Michael. “Quer dizer, além da diferença de idade e de você ser a melhor amiga da minha irmã, tem ainda o lance de você ser princesa... essa coisa de você viver rodeada de paparazzi e de não poder sair sem o guarda-costas e tudo o mais. Um homem mais fraco poderia achar tudo isso demais da conta. Eu, por outro lado, sempre apreciei um desafio. Além do que, eu te amo, então, vale a pena.”
Eu praticamente derreti ali mesmo. Quer dizer, fala sério. Será que algum cara ALGUM DIA já disse alguma coisa assim tão fofa?
Mas daí ele prosseguiu.
“Não que eu esteja tentando apressar você a fazer uma coisa para a qual ainda não está pronta”, disse Michael, com tanto descaso como se estivesse falando sobre o próximo movimento que planejava fazer em Rebel Strike. Aliás, como é que os meninos conseguem fazer isso? “É só que eu sei que demora um pouco para você se acostumar com as coisas. Então, quero que você comece a se acostumar com o seguinte: você é a garota que eu quero. Um dia, você VAI ser minha.”
Agora, o meu rosto estava MAIS VERMELHO do que o molho da pizza. Pelo menos, era o que eu sentia.
“Hmm”, disse eu. “Certo.” Porque, o que mais eu PODERIA dizer depois daquilo????
Além do que, eu não estava exatamente descontente. Eu QUERO que Michael me queira.
É só que, sabe como é, ele DIZER isso assim desse jeito, foi meio.., sei lá.
Uma delícia.
“Bom, se isso estiver bem claro, está bom”, disse Michael.
“Está claríssimo”, respondi, depois de passar um tempo me engasgando.
Daí ele disse que, na questão de Fazer Aquilo, eu estava dispensada por enquanto, mas que ele esperava reavaliações periódicas a respeito do assunto.
Perguntei de quanto em quanto tempo ele achava que deveríamos reavaliar o assunto, e ele disse mais ou menos uma vez por mês, e eu disse que achava reavaliações de seis em seis meses melhores, e daí ele disse dois, e eu disse três, e ele respondeu: “Combinado.”
Então, ele se levantou e foi oferecer mais uma fatia ao Lars e ficou preso na conversa que Lars estava tendo com o cara do balcão a respeito das chances do Yankees no campeonato de beisebol este ano, apesar de, até onde eu sei, Michael nunca ter assistido a um jogo de beisebol na vida.
Mas o que ele fez foi desenvolver um programa de computador em que a gente coloca todas as estatísticas relativas a um time e daí, com ele, determina quais são as chances de um time ganhar de outro com margem de erro bem pequena.
A verdade é que eu amo Michael. Ele é o garoto que eu quero. E, um dia, ele VAI ser meu.
E agora ele quer saber se eu quero tomar um sorvete.
Eu respondi:
“Com toda a certeza, quero sim.”